Filosofia clínica e os relacionamentos

 em Filosofia Clínica

Você já parou para pensar sobre o que faz um relacionamento afetivo ou (des)afetivo acontecer entre duas pessoas? Que elementos estariam envolvidos na união de dois seres humanos, sejam eles tão diferentes ou tão iguais? O que aproxima ou afasta um do outro? O que faz uma relação ser sólida ou líquida[1]? O que faz um relacionamento dar certo ou dar errado? Seja lá o que for que possa ser considerado “certo” ou “errado”, conforme os critérios de cada um.

Falamos em critérios de cada um, porque em Filosofia Clínica, o que pode ser considerado “certo” para um, pode ser completamente “errado” para outro. Sendo assim, ao falar sobre relacionamentos, precisamos levar em conta cada casal em particular (sua história e suas circunstâncias), toda vez que quisermos pensar sobre um relacionamento.

Cada pessoa viveu uma história de vida que é exclusivamente dela e de mais ninguém, ou seja, antes de cada casal se encontrar, ambos viveram suas vidas e têm, por isso, uma Historicidade particular. A Historicidade faz com que cada um de nós tenhamos Estruturas de Pensamento diferentes, nunca existirão duas exatamente iguais, por mais que possam se assemelhar.

Dos trinta tópicos básicos que estudamos para compor uma Estrutura de Pensamento (EP), destaca-se o Tópico 28 que trata das Interseções entre Estruturas de Pensamento. Uma Estrutura de Pensamento “sozinha” pode ser uma coisa, mas quando em interseção com outra EP, pode ser completamente outra. Este é um dos aspectos, existem ainda outros, como por exemplo, as associações com outros tópicos da EP.

Imaginemos como ficaria uma interseção entre uma pessoa que tivesse um forte Pré-juízo (Tópico 5), de que nenhum homem/ou mulher são confiáveis, todos inevitavelmente traem, e suas Emoções (Tópico 4), a fizessem sentir que o amor só pode acontecer se houver confiança e fidelidade, sendo que essa pessoa tem como Busca (Tópico 11) o amor; do outro lado da interseção estaria outra pessoa que pelo simples fato de ser homem/ou mulher teria que lidar com o Pré-juízo do outro de não ser alguém confiável, que cedo ou tarde, irá trair. Isso entraria em choque com o Tópico 2 – O que acha de si mesmo, que seria um tópico muito forte na EP da segunda pessoa desta relação, pois ela acha dela mesma que sua maior e melhor característica, é ser alguém de extrema confiança e fidelidade. Além disso, esta segunda pessoa também tem um Pré-juízo (Tópico 5) fortíssimo, atrelado à crença religiosa dela, na qual ela acredita que traição é um pecado imperdoável para Deus.

Ficaria como no gráfico abaixo:

Essa é uma ilustração simplória, apenas com finalidades didáticas, pois se tratando de pessoas de fato, esses tópicos se movimentam, articulam-se de modo a compor toda uma Autogenia, que seria a resultante dessa mescla tópica dentro de um determinado contexto e uma Base Categorial.

Nesse exemplo, buscou-se ilustrar quando acontecem choques entre os tópicos de cada um dos envolvidos na relação. Há relacionamentos que teriam tudo para “dar certo”, alguns inclusive passando pelo viés do que se chama “amor” e, por causa de alguns choques entre tópicos (que talvez poderiam ser atenuados ou completamente resolvidos), acabam rompendo com o relacionamento, causando uma dose de sofrimento para os envolvidos que, por vezes, poderia ter sido evitada. É uma pena, mas quando a pessoa desconhece, ela pode se machucar sem saber. Tal como um bebê que por não saber que fogo queima, coloca a mão na chama da vela do bolo de aniversário.

Os choques entre tópicos das Estruturas de Pensamento é um dos motivos pelos quais alguns problemas podem ocorrer em relacionamentos, mas ressalto o que havia dito no início: para cada casal, duas Historicidades e duas Estruturas de Pensamento, por isso, cada caso é um caso, consequentemente, cada casal é um casal… E assim como os problemas em uma relação, as possibilidades e soluções também vão ao infinito.

Esta temática tem estado em alta na nossa época, talvez muito mais do que nos tempos passados, nos quais os critérios da sociedade tornavam o campo dos relacionamentos mais restrito em termos de discussões. Novas formas de relações surgiram, que não se enquadram mais nos moldes das relações históricas. O próprio conceito de família, atingiu modelos que tempos atrás inexistiam.

Contudo, os relacionamentos continuam a existir, pense em quantas pessoas você conhece que vivem completamente sozinhas e isoladas, sem que tenham tido nenhum relacionamento sequer? E quantas você conhece que estão vivendo um relacionamento? Ou já estiveram em um relacionamento? Ou estão em busca de um? Faça as contas e note o valor que os relacionamentos têm em uma sociedade como a nossa.

Para os que gostam de autorreflexões, pensem sobre qual valor você atribui aos relacionamentos em sua vida; nesse aspecto, o Tópico 18 – Axiologia, tem ou não relevância para sua Estrutura de Pensamento? Quais seriam os tópicos que você acredita que tenham um peso subjetivo maior, em se tratando dos seus relacionamentos? Para os que estão em um relacionamento, estão satisfeitos com esta relação? Qual a qualidade dos seus relacionamentos? Para você, o que seria um relacionamento ideal? E para os que utilizam o Submodo 11 – Atalho: Como seria o relacionamento ideal para você?

Para os que estão em busca do relacionamento ideal, faço uma analogia com a Caverna de Platão e desejo que possam encontrar o relacionamento “ideal” no mundo “real”, que encontrem as luzes e não se contentem com as sombras de dentro da caverna. Quem está dentro de uma pequena caverna escura, pode achar que o mundo inteiro se resume só a isso e, desconhecer que existe um universo inteiro todo colorido e iluminado lá fora…

 

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[1] Relação líquida – termo difundido por Zygmunt Bauman em sua obra Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

 

 

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Para estudiosos da Filosofia Clínica, clique aqui se desejar ler um breve artigo sobre como a diferença de nível autogênico pode afetar um relacionamento.

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Fonte: Publicado em 18 de julho de 2013 no tamanho 940 × 360 em EUREKA! por Elza Tamas. Disponível em: . Acesso em: 26 abr. 2018.