TransVERsalidades no olhar

 em Filosofia Clínica

Com quais olhos você olha o mundo? Como você enxerga a vida? De qual ponto de vista parte a sua filosofia? Qual é a realidade que as lentes que você usa lhe mostram?

Concordo com Leonardo Boff (2000, p. 9), que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”, às vezes, o ponto em que estamos nos permite ver só uma parte da vista e não a paisagem inteira. Deixe-me exemplificar: Imagine que você está olhando para fora por uma janela, porém, há um prédio muito grande e alto na frente dessa janela em que você se encontra e, por mais que você tente ver a paisagem ao longe, esse prédio encobre totalmente a sua visão. Da janela em que você olha, sua visão só alcança até alguns metros, quando então, se depara com o imenso prédio vizinho. Isso não quer dizer que não exista nada para além do prédio, só porque você não está vendo do ponto em que está, as coisas para além da sua visão, nem por isso desaparecem. Você sabe que a cidade continua atrás do prédio que está bloqueando a sua visão, há outros edifícios, ruas, carros passando, pessoas, lojas, barulhos, pássaros, quem sabe até flores… muitas coisas que você não consegue ver, mas sabe que existem.

Já parou para pensar que podemos usar essa metáfora (Vice-conceito), diante de certas situações em nossas vidas? Quantas possibilidades podem existir para além do que podemos ver? E quantas vezes, talvez já fomos essa pessoa olhando pela nossa janelinha, acreditando que não existiria nada capaz de solucionar nossos problemas, simplesmente por nos depararmos com um muro bloqueando a visão da nossa janela?

Acreditar que o mundo é só o que conseguimos ver dele, parece-me estreitar os horizontes da vida – que, poderia ser tão mais imensa e cheia de possibilidades, quando nos permitimos aceitar que pode existir outras coisas para além do que nossa visão é capaz de alcançar.

Na minha opinião, os grandes filósofos da história, foram aqueles que buscaram ir além dos muros, muito da ciência que temos hoje, não existiria se alguns tivessem pensado e acreditado só no que se podia ver pelas janelas da época. Assim, buscar novas janelas, é abrir-se à possibilidade de conhecer a paisagem por outros ângulos, ampliar os horizontes do que já conhecemos, ou ainda, é descobrir-se em paisagens novas.

Ao abrir novas janelas, estamos diante de novas possibilidades, no entanto, é sempre um encontro com o desconhecido. Se não sabemos o que há para além do que estamos acostumados a ver, algumas precauções podem ser nossas amigas que nos manterão em segurança. Pode ser que se olharmos por uma nova janela de outra localização, veremos que depois daquele imenso prédio que bloqueava nossa visão, pode haver um parque lindíssimo, com ipês floridos, borboletas, passarinhos cantando, uma fonte que proporciona minúsculos arcos-íris sob a luz do sol, ou, também pode haver um lixão desagradável. Nesse caso, lembrem: Seletividade! Palavrinha importante para orientarmos nossa Estrutura de Pensamento (EP) de acordo com o que têm, ou não, a ver conosco.

Há um dito popular que diz que os olhos são as janelas da alma, se assim fosse, numa hipótese, talvez devêssemos ser mais cuidadosos para onde escolhemos olhar, já que o que olhamos poderia ir direto para dentro de nossa alma, através dos olhos.

Conheço pessoas que falam que estão buscando o amor, que desejam ter paz, felicidade, que dizem gostar das coisas poéticas da vida, mas ao ouvi-las falar por poucos minutos, elas contam das violências que acontecem na sociedade, da corrupção, das discussões… Elas demonstram que estão voltando seu olhar para os problemas das mais variadas ordens. Como essas pessoas poderão encontrar o amor que buscam se estão voltando seu olhar em uma direção aparentemente tão oposta àquilo que apontam como busca em suas vidas? Provavelmente, algumas deixariam de agir assim se soubessem o quanto olhar a vida desse modo pode afastá-las de seus sonhos.

Eis um dos papéis existenciais do filósofo, do artista, do poeta: ensinar novas possibilidades para o olhar diante da vida.

Acredito que um dos grandes segredos da pintura não está nas tintas, nem nas técnicas de pintura, mas está no olhar. No olhar daquilo que se vê. Qualquer fenômeno que surja, pode ser transformado pelos olhos do poeta, Mário Quintana que o diga: de um simples barulho dos pingos da chuva, pôs um anjo molhado tocando flautim no telhado, enquanto outros olhares talvez nunca se voltassem para o barulho da chuva.

Imagine alguém cuja Estrutura de Pensamento gostasse, ou simpatizasse com a ideia de “anjos da guarda”, pois para essa pessoa hipotética, anjos da guarda trazem paz e tranquilidade quando se aproximam; contudo, por essa pessoa nunca ter visto um anjo da guarda com seus próprios olhos, ela passou a acreditar (Pré-juízo) que anjos não existem, já que ela não os vê. Até que um dia, ao ler esse poema de Mário Quintana[1], ela imaginou como seria um anjo molhado tocando flautim no telhado durante a chuva. Riu, achou o poema engraçado. Viu o anjo com os olhos da imaginação (sim, imaginação é também uma janela para a vida, em alguns casos). Nunca mais se ocupou disso, passou-se o tempo e um dia estava estressada, trabalhando em uma questão qualquer, quando de repente, ouviu os primeiros pingos de chuva em cima do telhado: “pirulin lulin lulin”, como no poema de Mário Quintana, e nesse mesmo instante, voltou seu olhar para a janela da imaginação e lá estava, o anjo molhado, tocando flautim e assim como a chuva que escorria pelo telhado, paz e tranquilidade escorreram para dentro da alma dessa pessoa e, uma tímida lágrima, tentava escorrer pelo cantinho de seus olhos… A janela se fecha de repente, quando um colega de trabalho, pergunta se está tudo bem, então a pessoa responde: “sim, você viu que começou a chover?” E o colega de trabalho pensa sem entender nada, que estudantes de filosofia talvez sejam mesmo, “meio malucos” … ele não quer entender, pois seu olhar está voltado às situações estressantes do trabalho. Quando então, a pessoa diz para este colega, que acaba de ter uma ideia que irá resolver esta questão estressante, na qual eles estavam trabalhando. E ele pergunta surpreso de onde veio a ideia. Ela sorri e responde em tom de brincadeira:

– “Tive um lapso de paz e tranquilidade, acho que foi um anjo que me inspirou!”

– “Anjo? Bobagem. Se não os vejo, logo não existem”. Riu o colega.

E a pessoa não tinha mais tanta certeza do que existia ou não. Como estudante de Filosofia, estava tentando não reduzir a vida condicionando-a à sua visão. Para o Filósofo Clínico sempre é válida a humildade de reconhecer que a vida do partilhante vai muito além do que podemos ver pela nossa janelinha de terapeutas.

Ontem, eu estava caminhando na calçada e vi poemas impressos em folhas de papel colados na parede de um estabelecimento pelo lado de fora, mais ou menos na altura dos olhos de quem passa pela calçada a pé. Era como se os poemas, pequenos seres transversais ao agito da movimentada avenida, pedissem por encontrar olhos que os lessem. Mas meus olhos estavam voltados para o tempo dos compromissos, passos apressados, logo afastaram meus olhos dos poemas, ficaram para trás, como um elemento transversal que passou por mim fragmentado. Quantos milhões de elementos transversais devem passar a cada dia bem diante de nossos olhos sem que os vejamos?

Há poemas nas calçadas,
vou contar a todos,
mesmo que não acreditem em mim,
mesmo que nunca viram
há poemas nas calçadas.
Quando andar pelas calçadas da vida,
Volte seu olhar…
E pode ser que veja poemas!
Pois é no olhar do poeta
Que a poesia vai primeiro se expressar.

 

[1] Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê…
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin…

(Canção de Garoa – Mário Quintana; 2013, p. 28)

 

Referências

BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. 34. ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
QUINTANA, Mário. Antologia Poética: texto integral. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

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