Novas tecnologias, sim, mas ética e responsabilidade devem ser inegociáveis.
Artigo de João Trajano Gomes. Aluno do Curso de Formação em Filosofia Clínica – Instituto Packter – Secção Florianópolis. “Bacharel em filosofia”, pelo Centro Universitário Internacional, UNINTER. Pós graduação: “Especialista em Filosofia Clínlca” pelo Instituto Packter. Curso Avançado de Procedimentos em Filosofia Clínica: Instituto Packter Secção Florianópolis – SC
SUMMARY
Many times I found myself reflecting, I don’t know whether out of curiosity or genuinely wanting to know, the cause of this pandemic of mental disorders that overwhelms us and, according to recent studies, is increasing and affects indiscriminately, and to varying degrees, primarily: adolescents, young adults, and astonishingly, hitting hard at our future as humanity, our children.
It hit me hard when I watched the Netflix series “Adolescence,” which tells the story of Jamie Miller, a thirteen-year-old boy accused of murdering a teenage girl from his school. The production shows how young people are influenced by family, social, and digital environments, illustrating the effects that misogynistic and conservative discourses can have on the upbringing of young people, particularly boys in this specific case. In this series, I learned the term incel (involuntary celibacy), a label that the young man accepted, believing he lacked sufficient personal appeal to attract a girl friend.
Keywords: Adultification, Algorithm, Ethics, Incel, Misogyny.
RESUMO
Muitas vezes me percebi refletindo, não sei se por curiosidade ou querendo realmente saber, a causa dessa pandemia de transtornos mentais que nos assola e que, conforme estudos recentes, é crescente e atinge indiscriminadamente, e em proporções diferentes, principalmente: adolescentes, adultos jovens, e pasmem, atingindo em cheio o nosso futuro como humanidade, as nossas crianças.
A coisa bateu forte quando assisti na Netflix a série “Adolescência”, que narra a história de Jamie Miller, um jovem de treze anos que é acusado de assassinar uma adolescente de sua escola. A produção mostra como os jovens sofrem influências pelo ambiente familiar, social e digital mostrando os efeitos que discursos misóginos e conservadores podem ter na criação dos jovens, neste caso específico os meninos. Nesta série fiquei conhecendo a palavra incel (celibato involuntário) termo com o qual o jovem foi rotulado, e aceitou, por acreditar que não possuía atrativos pessoais suficiente para arranjar uma namorada.
Palavras chave: Adultização, Algoritmo, Ética, Incel, Misoginia.
INTRODUÇÃO.
Após assistir e refletir sobre a série” Adolescência”, e perceber que o meu entendimento sobre a dinâmica das redes sociais estava distante da realidade em que vivemos, resolvi estudar com profundidade o assunto e entender o quanto as novas tecnologias ,que sim, nos trazem tantas facilidades, carregam no seu bojo interesses escusos que visam em primeiro lugar os lucro advindos das nossas “curtidas e visualizações” nas redes sociais.
Conforme Jonas, em sua obra “O princípio Responsabilidade”: “Não há dúvida de que existe progresso na “civilização”, geralmente em todos as modalidades do saber humano que são capazes de acumular-se para além da vida individual (porque são transmissíveis) e constituem patrimônio coletivo: ou seja, na ciência e na técnica, na ordem social, econômica e política, na segurança e conforto da vida , na satisfação das necessidades, na diversidade dos objetivos produzidos culturalmente e de modos de desfrute, na ampliação do acesso a eles, no desenvolvimento do direito, na consideração pública pela dignidade pessoal – e, naturalmente, também nos “costumes”, ou seja, nos hábitos internos e externos da vida coletiva, que podem ser mais brutos ou mais refinados, mais duros ou mais gentis, mais violentos ou mais pacíficos.”¹
A partir da falta de responsabilidade, que atribuo aos gestores de algoritmos nas Big Techs, incluídas aí as plataformas digitais, quero mostrar que essa corrida desenfreada na busca de assuntos que muitos de nós não tem um claro entendimento, mas que é essencial para entrar em alguns grupos socias nos quais queremos ser aceitos sem sermos rotulados de ultrapassados, já é possível demonstrar que estamos sofrendo uma agressão bastante forte na nossa saúde mental capaz de contribuir de maneira decisiva no nosso humor e trazendo consequências como ansiedade, depressão, pânico, angustia (já tratados anteriormente em artigo publicado no site do curso, “Um desastre climatológico e as afecções da alma intelectiva”)², e episódios de automutilação entre os adolescentes, e de adultização infantil, em detrimento de um cuidado ético, que julgo ser inegociável, principalmente com os mais vulneráveis (crianças e adolescentes), embora hodiernamente também estejam afetando pessoas adultas.
TEXTO.
No início dos anos dos anos dois mil, empresas de tecnologia da costa oeste americana desenvolveram um combo de produtos que se aproveitavam do crescimento rápido da internet. Como esses produtos tornavam a vida mais fácil, divertida e mais produtiva, o clima geral era de otimismo. Alguns favoreciam a aproximação e a comunicação entre pessoas parecendo o despertar de uma nova era. Os fundadores dessas empresas eram proclamados como heróis, gênios, bem feitores mundiais.
No entanto, isto estava transformando não só a vida dos adultos, mas também a dos jovens. Apesar que desde anos 1950 crianças e adolescentes assistissem bastante televisão, as novas tecnologias eram mais portáteis, personalizadas e envolventes, mais que tudo que havia vindo antes. Um grande número de pais, ficaram aliviados com a percepção que um smartphone ou tablet podia manter a criança entretida, feliz e quieta ao longo de horas. Ninguém sabia se era seguro ou não, mas como todo mundo estava usando presumia-se que fosse.
É, aí, que começam a aflorar os problemas pois as empresas de tecnologia haviam feito poucas ou nenhuma pesquisa, acerca dos efeitos do seu produto sobre a saúde mental de crianças e adolescentes e não compartilhavam informações com pesquisadores que começaram a estudar as questões. As empresa foram confrontadas com mais e mais indícios de que os seus produtos eram prejudiciais aos jovens e a maioria delas escolheu o caminho das negativas e da tergiversação pois pretendiam aumentar ao máximo que pudessem o engajamento dos jovens, se valendo de artifícios psicológicos para fisgarem as crianças em estágios vulneráveis de desenvolvimento, quando a sua malha intelectual se reconfigurava rapidamente em resposta aos estímulos externos. Foi observado que as redes sociais causavam mais danos em meninas e, empresas de jogos on-line e sites pornográficos afetavam mais fortemente os meninos. Esse fluxo, em tempo real, de conteúdo viciante que entrava pelos olhos e ouvidos das crianças, sem filtros, substituiu o aspecto físico da socialização, reconfigurou a infância e transformou o desenvolvimento (mexeu com as bases categoriais³) em uma escala quase inimaginável.
A pergunta que não quer calar: porque não foram impostos limites legais a essas empresas de tecnologia? Segundo Jonathan Haidt⁴, autor de geração ansiosa, nos Estados Unidos que acabaram por estabelecer o padrão para a maioria dos outros países, a principal barreira é a Children’s Online Privacy Protection Act [Lei de proteção da privacidade da criança] ou Coppa, na sigla em inglês, promulgada em 1998: crianças precisam completar treze anos para não precisarem da autorização dos pais para assinarem um contrato (ou termo de serviço com uma empresa e assim cederem seus dados). Na prática se estabelece “a maioridade na internet” aos treze anos, por motivos que pouco têm a ver com a segurança ou saúde mental das crianças.
Quando falo com as pessoas e digo que as redes socias são viciantes, se comportam como hábito e que é muito difícil sair desse vício, enfatizo que:
“embora as partes do cérebro que buscam recompensas se consolidem depressa, o córtex préfrontal – indispensável para o autocontrole, a recompensa deferida e a resistência à tentação – não opera em sua capacidade total até os vinte e poucos anos, e pré-adolescentes estão em um ponto ainda mais vulnerável de desenvolvimento”.
Muitos jovens quando socialmente inseguros, sentem a pressão dos amigos e são atraídos com facilidade por atividades que pareçam oferecer validação social, como no caso “Jamie Miller apresentado na série Adolescência na Netflix”.
O período que considero essencial para o entendimento daquilo que acontece nos dias de hoje foi denominado de período da geração Z, a geração ansiosa. Conforme Jonathan Haidt, graças ao trabalho revolucionário da psicóloga social Jean Twenge, sabemos que as diferenças entre as gerações vão além dos eventos que as crianças vivenciam (como guerras e depressões) e incluem mudanças nas tecnologias que elas usam (rádio, depois televisão, depois computadores, depois internet, depois smartphones.
As pessoas mais velhas da geração Z entraram na puberdade por volta de 2009, quando várias tendências tecnológicas convergiram: a banda larga na década de 2000, a chegada do iPhone em 2007 e a nova era de redes sociais hiperviralizadas, iniciada em 2009, com os botões de “curtir” e “compartilhar” (ou “retuitar”), que transformaram as interações e as relações entre grupos do mundo on–line. Antes deste ano, a principal função das redes sociais, era manter contato com os amigos, pois elas tinham menos recursos de feedback instantâneo que geravam repercussões e, portanto, menos tóxicos que os de hoje.
Uma outra tendência teve início poucos anos depois e com um impacto muito maior nas meninas: o aumento no número de publicações selfies, depois que as câmeras frontais passaram a ser integradas aos smartphones (2010) e o Facebook comprou o Instagram (2012), o que fez a sua popularidade explodir. O número de adolescentes postando, para os seus amigos e desconhecidos, imagens e vídeos bem elaborados e selecionados de sua vida, não apenas para serem vistos, mas julgados.
Essa geração foi a primeira a passar pela puberdade utilizando uma espécie de portal no bolso, como relata Haidt, que os afastava das pessoas próximas e os puxava para um universo alternativo empolgante, viciante, instável e inadequado para crianças e adolescentes. Na ânsia de serem socialmente bem-sucedidos nesse novo mundo, precisavam de muita dedicação de grande parte de sua consciência, o tempo todo, para gerenciar o que viria a se tornar a sua marca na internet. Tudo agora se tornava necessário para serem aceitos pelos amigos, coisa vital na adolescência, e para evitar o linchamento na internet, o grande pesadelo da adolescência. Esse “não poder sair do smartphone” virou uma paixão dominante e muitos se obrigaram a ficar muitas horas do seu dia navegando pelas publicações felizes e reluzentes de amigos, conhecidos e “desconhecidos”.
Com o aumento dos vídeos transmitidos gratuitamente, produzidos e criados por amigos ou por empresas de entretenimento que os transmitiam gratuitamente via streaming, e que utilizavam algoritmos projetados para mantê-los conectados o maior tempo possível, a geração Z reduziu drasticamente as suas interseções com a sociedade corporificadas e essenciais para o bom desenvolvimento da malha intelectual.
Os membros da geração Z foram agendados com uma maneira radicalmente nova de crescer e que passa bem distante das interações em comunidades pequenas do mundo real a partir das quais os humanos evoluíram. Como houve uma grande mudança nos dados axiológicos das crianças podemos nomear esse fenômeno de Grande Reconfiguração da Infância. Crianças precisam de liberdade para brincar e podemos dizer que essa Grande Reconfiguração não abrange apenas mudanças tecnológicas que agendaram os dias e mentes das crianças. Houve também uma abrupta mudança de rumos em da superproteção das crianças e o encurtamento da sua autonomia no mundo real, com a consequente falta de liberdade pra brincar livres que é um espaço importantíssimo para o seu desenvolvimento. Os pequenos desafios, as quedas físicas e emocionais que surgem durante o brincar funcionam como uma espécie de vacina que prepara as crianças para desafios com maior magnitude.
Esse brincar sem amarras existenciais, entrou em decadência acelerada na década de 1990 embora já viesse dando sinais de declínio nos anos 1980 sendo esse período o início da transição de uma “infância baseada no brincar” para uma “infância baseada no celular” que conforme Haidt, só terminou na década de 2010, quando os adolescentes passaram a ter o próprio smartphone. Obs: O termo infância é usado de forma ampla, tanto para crianças quanto adolescentes.
Com o avanço da transição muitas crianças e adolescentes deram mostras de que ficaram felizes em ficar dentro de suas casas, navegando, mas, com essa atitude deixaram de se expor às novas emoções e interseções socias, mais do que todos mamíferos jovens precisam para desenvolver habilidades corriqueiras, superar medos inatos e se preparar para depender menos dos pais, já que as interações virtuais com amigos não compensam em toda sua amplitude a perda dessas experiências. O pior de tudo é que aqueles com tempo livre, e cuja vida social migrou para a internet, passaram a navegar cada vez mais em espaços adultos e a consumir tais conteúdos. A maioria dos pais tentava limitar o espaço que concedeu aos filhos, mas não sabiam como fazê-lo pelas dificuldades de compreender o que se passava ali.
Segundo Haidt, “não havia muitos indícios de uma crise iminente de saúde mental na adolescência nos anos 2ooo, quando, então, no início da década de 2010, as coisas mudaram e a onda começou a se formar”.
Transtornos mentais tem muitas causas, sempre com uma combinação complexa de genes, experiências e agendamentos na infância, e fatores sociológicos.
O autor mostra graficamente os motivos que levaram os índices de transtornos mentais da geração Z aumentaram em muitos países entre 2010 e 2015, enquanto gerações anteriores não foram igualmente afetadas, e pergunta: qual o motivo de haver um aumento internacional sincronizado nos índices de ansiedade e depressão entre adolescentes?
Apenas como amostra, incluímos dados de uma pesquisa que se encontra no livro (A superproteção da mente americana) escrito por Greg e Haidt no início de 2018. A fig. 1.1 baseada em um gráfico incluído nesse livro, com dados de 2016, foi atualizada para mostrar o que aconteceu desde então. Todo ano o governo americano conduz uma pesquisa com adolescente, perguntando questões relacionadas a uso de drogas e saúde mental – por exemplo: você já passou um longo período sentindo “tristeza, vazio ou depressão”, ou “perdeu o interesse pelas coisas de que costumava gostar”? Considera-se altamente provável que aqueles que respondem sim a mais de cinco das nove perguntas sobre sintomas de depressão grave tenham passado por um “episódio depressivo maior” no ano anterior.
Observa-se um aumento repentino e bastante significativo de episódios depressivos maiores iniciados por volta de 2012. O aumento entre as meninas foi muito maior que o aumento entre meninos em termos absolutos. Os meninos começam com um nível mais baixo que os das meninas, portanto, em termos relativos, o aumento foi parecido em ambos os sexos – por volta de 150%. Esse aumento foi detectado em todas as classes sociais. Parte dos dados foi coletada antes e parte depois do isolamento social devido a pandemia da covid, e àquela altura uma em cada quatro adolescentes americanos havia passado por um episódio depressivo maior no ano anterior. Também fica visível que as coisas pioraram em 2021; as linhas se inclinam de maneira mais acentuada depois de 2020. No entanto, a parte mais significativa desse aumento ocorreu antes mesmo da pandemia.
A ansiedade e os transtornos associados a ela parecem ser o transtorno mental que define os jovens de hoje. A quinta edição revisada do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5-TR) define a ansiedade como a antecipação de uma ameaça futura.
É saudável sentir ansiedade e ficar alerta quando nos encontramos numa situação na qual o perigo pode estar à espreita, mas, se o nosso alarme dispara por eventos triviais, incluindo muitos que não representam perigo real, ficamos constantemente angustiados. É desse modo que a ansiedade comum, saudável e temporária se transforma em transtorno de ansiedade.
Aqui no Brasil também existem estudos sobre transtornos mentais em crianças e adolescente. A Abriq⁵ , por exemplo, nos alerta que os transtornos mentais são comuns também em crianças e adolescentes, podendo ter alguma condição que afete principalmente campos ligados ao neurodesenvolvimento, assim como aspectos relacionados à cognição e funcionalidade. A Organização Mundial de Saúde considera duas principais categorias para os transtornos mentais em crianças e adolescentes, sendo eles os transtornos do desenvolvimento psicológico e transtornos de comportamento e emocionais. “Os estudos epidemiológicos existentes apontam que cerca de 10% a 20% das crianças e adolescentes apresentam problemas de saúde mental, sendo os mais comuns nesta população: ansiedade, distúrbios de comportamento, hiperatividade e depressão. Na população adolescente os quadros de depressão, uso de substâncias (álcool e outras drogas) e violência autoprovocada adquirem maior relevância”, informa Eliana Ribas, psicanalista da Prattein⁶.
Por falta de informação adequada muitos acreditam que somos diferentes e que esses problemas não nos atingirão tão facilmente porque sabemos lidar com as nossas crianças e adolescentes e que a internet não tem tanta influência assim.
Não é o que mostra a pesquisa que nos mostra que a influência da mídia e da internet pode aumentar a disparidade entre a realidade vivida pelos jovens e suas percepções ou aspirações para o futuro. Entre os fatores que contribuem para o estresse durante estes momentos da vida estão o desejo de uma maior autonomia, pressão para seguir padrões da sociedade, exploração da identidade sexual e maior acesso ao uso de tecnologias, fazendo fervilhar a malha intelectual, preocupando-se com o parecer dos seus convivas, sofrendo agendamentos e entrando em armadilhas conceituais.
Segundo a Pesquisa sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes no Brasil –
TIC Kids Online Brasil 2018, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o
Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 86% das crianças e adolescentes brasileiras, de 9 a 17 anos, estão conectados à internet, o que corresponde a 24,3 milhões de usuários. Em 93% dos casos, o acesso ocorre pelo celular, por meio do compartilhamento de mensagens instantâneas e das redes sociais. O estudo alerta ainda sobre os danos causados pelas mídias digitais, pois 20% das crianças e adolescentes presentes na amostra relataram riscos sensíveis em relação à alimentação ou sono, 16% em relação à autolesão e 14% ao suicídio. Danos causados pelas mídias digitais 20% riscos sensíveis sobre alimentação ou sono.
Os dados evidenciam a grande exposição que crianças e adolescentes têm a diferentes conteúdos na internet, fato que coloca em risco a saúde da mente, e origina ou agrava, em alguns casos, problemas de comportamento e dependência digital. Em excesso, o uso da tecnologia pode diminuir a capacidade de desenvolver empatia, aumentar o sedentarismo e dificultar o desenvolvimento da linguagem o que mostra que sofremos dos mesmos problemas que as populações de outros países.
Um dos ensinamentos que Platão nos traz no “mito do cavalo alado⁷” é que se faz necessário que tenhamos equilíbrio para que corpo e mente andem em sintonia. Sendo assim a exposição que os mais jovens sofrem nas redes sociais faz com que esse equilíbrio não exista porque a alma jovem deve ser de natureza virtuosa e as redes sociais estão lhes mostrando a natureza animal ou seja esse rolar de telas no celular está fazendo com os cavalos andem em tempos diferentes um do outro, impedindo que a carruagem chegue ao seu destino cumprindo todas as etapas necessárias.
Outro ponto determinante para a saúde mental das crianças e dos adolescentes, no meio digital, é o tipo de relação e interação mantida por eles com os outros usuários. A violência, o assédio e abuso sexual infantil são reconhecidos como fatores riscos e podem ocorrer no meio on-line também, como o acontecido com uma adolescente brasileira, conforme o relato do pai a seguir:
“Eram quase onze horas de uma noite de sábado. Eu estava no quarto relaxando, maratonando uma série e, minha filha de 12 anos, bate à porta e fala: Pai, eu surtei. Me interna, eu surtei. Preciso se internada. De seu braços e pernas escorria sangue e a maquiagem borrada sob os olhos dava um tom mais preocupante à cena. Ela estava com o pulso acelerado acompanhado de um choro eufórico uma coisa muito estranha. Eu surtei, eu surtei me interna.⁸”
Conforme o pai aquela não era a primeira vez porque já houvera, fazia alguns meses, uma tentativa ou encenação de suicídio. Encenação ou realidade, a gravidade é a mesma, explicou um psiquiatra na época. A verdade é que a automutilação já vinha acontecendo a alguns meses, mas o que de fato o abolou foi jeito como ela falou: “Pai, eu surtei. Me interna, eu surtei”. “Eu não estava preparado para isso. Você oscila entre a culpa e a impotência e ao mesmo tempo se pergunta onde errou ou se poderia ter percebido os sinais ou feito algo para evitar.”
Segundo o pai após o falecimento da mãe de Julia ocorrido pouco antes da covid-19, pai e filha mudaram-se para o Rio de Janeiro, mas a adaptação na nova escola mostrou-se difícil. Começou a dizer que as outras meninas não gostavam dela. O pai procurou a direção explicou o que estava ocorrendo e pediu ajuda. Como era o único pai no grupo de whatsApp da sala dela, tentava se entrosar com as outras mães participando de tudo. Pedia para a filha chamar as coleguinhas, no intuito de brincarem lá. Ela dizia que não tinha amigas, e era verdade, ela se isolava das demais. “Embora nunca houvesse mostrado interesse no celular pensei que seria um bom presente de aniversário, já que todas as colegas estavam na posse de um. Ela ficou radiante. Imaginei que fosse só o que faltava para que ela se sentisse feliz e conectada com as amigas. Assim imaginei.”
Após o susto inicia com a atitude da filha, ensanguentada e pedindo para ser internada, pai e filha dirigiram-se, em silêncio, para o hospital. A única vez que Júlia abriu a boca foi para pedir o celular, coisa que o pai prontamente negou, até porque tinha deixado com a Dona Tereza, que cuidava dos afazeres na casa, para que ela fosse verificando o aparelho para ver se encontrava algo estranho.
Chegando ao hospital diante das perguntas da médica, Júlia nada respondia, esperando que o pai respondesse as perguntas. “Passados alguns minutos Dona Tereza me mandou, via celular, um vídeo de Júlia se filmando apontando para os cortes e dizendo: Eles me obrigaram a cortar a minha língua, para em seguida, virar a câmera e focar na língua como prova para o que dizia. Ao olhar o vídeo examinar a língua da menina a médica viu que todo aquele sangue não era proveniente do corte da língua, e sim proveniente do seu ouvido esquerdo, talvez devido a uma queda no banheiro. Ficou quatro dias no hospital, sendo os dois primeiros na UTI neurológica.
Júlia foi encaminhada para tratamento em uma clínica e, embora tentasse sair, foi mantida no local por um bom tempo. Após um longo calvário recuperou-se plenamente, voltou para a escola. Embora ainda faça uso de antidepressivos receitados pela médica tem um blog onde ajuda pessoas escrevendo textos em papel por que pegou ojeriza pelos eletrônicos. O pai é quem escreve os seus textos no computador.
CONCLUSÃO:
Embora os cuidados com as crianças sejam necessários nas ruas, não podemos esquecer que milhares de jovens enfrentam perigos dentro da segurança dos seus quartos, conectados mais do que o tempo necessário e ficando vulneráveis as armadilhas digitais que agem silenciosamente. Há claramente em curso um processo de “adultização”, com a exposição de crianças e adolescentes a comportamentos, práticas e responsabilidades de caráter adulto, alterando precocemente as suas bases categoriais. Mais sobre adultização no endereço:
https://www.bing.com/search?q=https%3A%2F%2Fwww.bing.com%2Fvideos%2Fsearch%3Fq%3
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Também existe o risco em gerar traumas psicológicos e a facilitação de crimes, como a pedofilia, por exemplo. Precisamos ter presente, que estes males, não vem ao acaso pois as plataformas digitais, como mostramos no artigo, utilizam armadilhas estrategicamente pensadas por profissionais que não ligam para a ética, e à responsabilidade e só querem fisgar as nossas crianças e adolescentes para auferirem lucros exorbitantes.
BIBLIOGRAFIA:
- Jonas, Hanz – O princípio responsabilidade, V – A responsabilidade hoje; O futuro ameaçado e a ideia de progresso, pg269, Contraponto Editora LTDA, Ed. PucRio, R.J, março 2011.
- João, Trajano-Um desastre climatológico e as afecções da alma intelectiva em https://www.filosofiaccom/Um–desastre–climatológico–e–as– afecções– da– alma–intelectiva/
- Aristóteles (384-322 aC)– Organon, categorias, pg.37 ,3ªEd, 1ªre 2019 impressão, Édipro, São Paulo.
- Haidt, Jonathan – A GERAÇÃO ANSIOSA, 5 ªreimpressão, Editora Schwarcz, Rua Bandeira paulista, 702, cj-32, São Paulo-SP.
- Abrinq – Fundação Abrinq pelos direitos da criança e do Adolescente, https://www.fadc.org.br
- Prattein – Consultoria em educação e desenvolvimento social Ltda.
https://www.facebook.com/pratteineducacao/
- Platão– 427? 347? aC, Diálogos Socráticos – III, Fedro (ou Do belo), “O mito do cavalo alado”, pg.73, 253d-254e, 2ªed., 1ª reimpressão 2019, tradução e notas Edson Bini, Edipro Edições Profissionais Ltda., Baurú, SP.
- Zsa, Paulo zsa – Aconteceu com minha Filha, Geração Editorial., Rua João Pereira, 81-Lapa, São Paulo, SP.
