Um Autista no Meu Consultório! E Agora??
Artigo de João Trajano Gomes. Aluno do Curso de Formação em Filosofia Clínica – Instituto Packter – Secção Florianópolis. “Bacharel em filosofia”, pelo Centro Universitário Internacional, UNINTER. Pós graduação: “Especialista em Filosofia Clínlca” pelo Instituto Packter. Curso Avançado de Procedimentos em Filosofia Clínica: Instituto Packter Secção Florianópolis – SC
INTRODUCTION
This article aims to provide information to my colleagues, regardingon the trajectory of Autism from the earliest studies and authors to what we corrently understand, moving away from ableist and/ or denialist beliefs and instead relying on evidence-based practices to understand what we today recognize as autism, so that we can inform those who seek our help about the procedures that can be implemented to include these people in Society.
INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo de trazer informações aos colegas, sobre a trajetória do Autismo, desde os primeiros estudos e autores, até ao que compreendemos atualmente, abandonando crenças capacitistas e/ou negacionistas e sim apoiando-se em práticas baseadas em evidências para compreender o que entendemos nos dias de hoje como Autismo, para sabermos informar aqueles que nos procurarem, quais os procedimentos que poderão ser implementados para a inclusão dessas pessoas na sociedade.
O Autismo no Brasil
A No nosso país a história do autismo é relativamente recente e começou a ser mais conhecida a partir da década de 1990. Antes disso, ele era pouco conhecido e diagnosticado no país, o resultava na rotulagem equivocada de muitas crianças como preguiçosas, rebeldes ou com problemas comportamentais.
Foi no ano de 1993 que o autismo foi incluído pela primeira vez no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria, e isso contribuiu para que o autismo começasse a ser mais estudado e diagnosticado no Brasil.
Somente em 2004 o Ministério da Saúde reconheceu oficialmente o autismo como uma deficiência, o que garantiu o acesso das pessoas com autismo aos serviços públicos de saúde e educação. Desde então houve u, aumento significativo no número de diagnóstico no país, o que contribuiu para a conscientização sobre o transtorno e para o desenvolvimento de políticas públicas voltada para a inclusão das pessoas com autismo na sociedade. Hoje, existem diversas entidades e organizações que lutam pelos direitos das pessoas com autismo no Brasil e oferecem suporte às famílias e aos indivíduos afetados pelo transtorno.
Historicamente, o Autismo, termo definido Kanner em 1943, passa por adequações envolvendo a quebra do Capacitismo e melhor compreensão das potencialidades das pessoas com o transtorno.
Kanner estudou 11 crianças que apresentavam comportamentos que as diferenciavam das demais do grupo, apresentando prejuízos sociais, comportamentos repetitivos, inflexibilidade, ecolalias, atraso de fala e linguagem e determinou que tais sintomas não mais eram compreendidos como Esquizofrenia infantil, o que contribuiu significativamente na distinção do TEA em relação aos demais transtornos existentes.
Porém, seus estudos ganharam mais visibilidade após o autor classificar a Autismo como perturbações relacionadas à questões afetivas e fortificou estudos e teorias como “Mães Geladeira”, que foram descritas no livro Fortaleza Vazia, de Bruno Bettleheim, que impactou significativamente, de maneira negativa, o avanço pela compreensão do tema na época, além de questões culturais envolvendo a responsabilidade da família.
Hoje temos a compreensão que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não se define por questões emocionais ou relações com seus pares (responsáveis) e sim por uma questão neurológica com forte causa genética, eximindo, assim, a responsabilidade de pais e mães pelas dificuldades enfrentadas pelos filhos ao lidarem com os sintomas do Autismo. É de extrema importância o embasamento científico acerca do tema para que informações pseudocientíficas não sejam propagadas, prejudicando o desenvolvimento dos pacientes, compreensão da família e até mesmo de muitos profissionais.
Com o avanço da tecnologia e dos estudos e dos estudos realizados e atualizados constantemente, é possível afirmar que 81% dos casos de Autismo possui causa predominantemente genética herdada, por meio de alterações de genes provindos da mãe, do pai ou de ambos; há ainda evidências de casos onde pais não apresentam alterações de genes, sendo uma mutação individual chamada DE NOVO, não no sentido de se repetir, apenas como nomenclatura para especificar
um mutação específica do desenvolvimento neurológico do indivíduo; dados de 0,4 a 1,2% dos casos de autismo possuem causa ambiental, mas não o ambiente de casa como muitos compreendem e sim o ambiente uterino que pode ser modificado por meio de intercorrências como medicações, uso de substâncias, falta de oxigenação, entre outros fatores que influenciam na formação do feto, principalmente no primeiro trimestre (PAIVA JUNIOR, 2019).
Foi comprovado também que existe um fator biológico que impacta na predominância do Autismo em pessoas do sexo masculino, justificado pelo que chamamos de “Teoria do Copo”, a qual descreve a capacidade neurológica do cérebro feminino em combater alterações que causem prejuízos em diferentes áreas do desenvolvimento. (Fig.01)
Fig.01
Também explicado por um teste chamado Exame: Eye Traking (Rastreamento do Olhar), em que ao expor um objeto e o rosto de uma pessoa em frente a um bebê recém-nascido com indicações de Autismo, foi constatado que meninas olham mais para o ser humano, meninos pra itens não humanos e crianças que olharam mais de 70% para a tela posteriormente foram diagnosticadas com TEA, sendo entre e mais
de 50% do sexo masculino. (fig.02)
fig. O2
Considerando a família como parte indispensável no processo de desenvolvimento de pessoa com Transtorno do Espectro Autista, é necessário considerar a importância do bem-estar emocional destes. O processo de diagnóstico envolve, na maioria das vezes, uma quebra de expectativas de forte influência no comportamento dos responsáveis.
Há um estudo feito pela autora Elisabeth Kübler-Rossi que divide o processo de diagnóstico dos filhos em cinco fase, as denominou como Fases de Luto. A primeira, chamada de Negação, se dá com o comportamento de fuga da realidade, se negando a enxergar os sintomas e comportamentos apresentados, pois vão contra as expectativas geradas, provocando sentimentos de desconfortáveis para a família, como medo e inseguranças.
A segunda fase, chamada de Raiva é quando há uma revolta por parte da família ao encarar a realidade e todos os possíveis obstáculos que envolvem o diagnóstico e desenvolvimento de uma criança com transtornos do neurodesenvolvimento, sendo comum que se busque pessoas ou coisas para culpar como forma de snar os sentimentos do momento.
A terceira fase se refere a Barganha, em que a família busca alternativas que julga que julga menos agressivas à sua aceitação como forma de não precisar encarar o processo que a espera. A quarta fase é chamada de Depressão, onde a família percebe que o movimento de estratégias alternativas não traz resultados e passa pelo momento de compreensão das emoções geradas desde o momento da “notícia”.
Por fim, as famílias chegam ao momento da aceitação, em que estão emocionalmente preparadas para buscar a praticar o que for necessário para auxiliar a criança nos tratamentos e procedimentos necessários. É primordial entender todas essas questões, pois a exigência feita a uma família que se encontra na última fase não pode ser não pode ser a mesma da primeira ou segunda, é necessário respeitar estas fases e compreender o que será possível a cada momento, pois nem sempre conseguiremos, enquanto profissionais, trabalhar com o ideal.
Dentre os motivos pelos quais as famílias normalmente apresentam resistência na aceitação do diagnóstico, destaca-se a desatualização de profissionais, o que acarreta em informações equivocadas ou na ausência delas para a família, a incompreensão da sociedade que acarreta em capacitismos ocorridos de diferentes maneiras, desde as mais agressivas até comentários considerados sutis, como: “Ele tem algum problema!”, “Nossa, mas ele é tão inteligente!”, “Ele tem um autismo mas é leve”, “Nossa, mas ele fala tudo!”, “Ah, agora tudo é autismo!”.
Pesquisas atuais comprovam a sobrecarga de pais e mães de pessoas com deficiência e a influência emocional na disfunção de Cortisol (hormônio responsável pela regulação do estresse). Schmidt e Bosa observam que “Os altos níveis de estresse encontrados nas mães de pessoas com autismo parecem estar relacionados a fatores como o excesso de demanda de cuidados diretos do filho, isolamento social e escassez de apoio social. Além disso, o alto nível de dependência de apoio da família e a carência de outras provisões de apoio geram intensos sentimentos de insegurança, ansiedade e temores em relação à condição futura da pessoa com autismo, afetando a família como um todo” (SCHMIDT;BOSA, p.183).
Como complemento deixo o link de um vídeo.
https://www.youtube.com/watch?v=ygYId-qGD_M
CONCLUSÃO
Importante considerar que a família deve participar e contribuir na estimulação das crianças, porém é de responsabilidade dos profissionais envolvidos (a equipe multidisciplinar indicada: Médico, terapeuta, fonoaudiólogo, Psiquiatra, etc.)
oferecerem orientações de quais os caminhos a serem seguidos, por meio de pesquisas embasadas em ciência.
Vamos ser facilitadores do processo diagnóstico junto às famílias
“NÓS NÃO SOMOS TODOS IGUAIS, MUITO PELO CONTRÁRIO, SOMOS TODOS DIFERENTES. O PROBLEMA ESTÁ EM TORNAR A DIFERENÇA UM OBSTÁCULO”.
