Sobre pássaros, gaiolas e a liberdade

 em Filosofia Clínica

Pássaros e gaiolas podem ser metáforas banais sobre a liberdade e a restrição da condição de voar, respectivamente… Podemos convir que um pássaro aprisionado em uma gaiola não é um sujeito livre; essa é uma ideia aceitável racionalmente e faz sentido no terreno da lógica. Porém, no mundo metafórico, essa mesma cena, pode ter conotações outras…

Imagine um pássaro chamado João, ele vive em uma linda gaiola dourada, que ele mesmo construiu com muito esmero. João se sente verdadeiramente livre, quando está muito bem trancando dentro de sua gaiola dourada (usufruindo de todas as comodidades que a gaiola dourada lhe dá: água fresca e alpiste sempre ao alcance do bico, proteção contra os “perigos” externos…). Abrir a porta e fazer João sair de sua gaiola, seria privá-lo de sua condição de liberdade – de acordo com as métricas e julgamentos do próprio João. Para alguns, libertar das gaiolas, pode ser uma forma de aprisionamento.

O filósofo clínico precisa se atentar a isso, pois a liberdade não é um conceito fechado e autenticado por dicionários. Se cada pessoa é única, não há como ter uma receita de liberdade que servirá para todos. Além do mais, nem sempre isso é um dado relevante, pois há pessoas cuja ideia de liberdade, simplesmente não aparece em suas Estruturas de Pensamento.

Vamos a outro exemplo, agora vou contar a história de outro pássaro chamado Antônio que também está em uma gaiola. Mas diferente de João, ele não gosta de nada disso, sente-se mal em sua condição restrita na gaiola. E esse “mal-estar” não é algo meramente sintomático, é o seu Assunto Último, sua verdadeira condição existencial; foi isso que um amigo filósofo clínico de Antônio percebeu ao ouvir sua Historicidade e ao conhecer sua Estrutura de Pensamento. Então, Antônio começou a trabalhar para se libertar da gaiola que nele havia. Com a ajuda desse amigo, só ao abrir a porta da gaiola, a brisa que entrou já fez Antônio sentir que a porta da gaiola aberta, era o que tinha de fato a ver com ele. Com o tempo, o pássaro Antônio pode voar livremente, a gaiola já não mais o prendia, nem se quer existia mais. A liberdade na vida do pássaro Antônio não estava no mundo das gaiolas, mas sim, bem longe delas.

João e Antônio são pássaros com ideias diferentes sobre liberdade. Se você fosse um pássaro, como eles, o que seria a liberdade para você? Habitaria nas gaiolas? Ou nos céus, mundo afora? Como seria a gaiola que você construiria para si? Ou como seria viver sem nenhuma gaiola?

Fico pensando que há pássaros que não construíram as gaiolas que outros lhes puseram.
Também há pássaros voando a esmo, desejando por uma gaiola que nunca tiveram.
Há pássaros que construíram gaiolas que nada tem a ver com eles.
Também há pássaros vivendo voos de liberdade que não são deles
e em nada combinam com seu jeito de ser…
Fico pensando, que vida vivem… e que vida poderiam viver…

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