O significado espiritual de uma peregrinação
Artigo de Luciano Filgueiras Dias de Souza. Advogado com 15 anos de experiência consolidada em Direito Civil e Processo Civil – formado em Direito pela Faculdade Metodista Granbery, com foco na resolução de demandas complexas e na entrega de soluções assertivas para clientes. Minha formação inclui especialização em Finanças e Investimentos (PUC-RS) e Filosofia Clínica, e atualmente sou graduando em Filosofia. Essa trajetória multifacetada me permitiu desenvolver habilidades robustas em liderança, comunicação eficaz e inteligência interpessoal, facilitando a colaboração em equipes e a compreensão aprofundada das necessidades dos clientes. A paixão pela Filosofia e pela fenomenologia confere uma visão crítica e holística, otimizando a atuação jurídica e a análise de desafios complexos. Certificado B, no Instituto Packter – Florianópolis (Bruno). Advogado com 15 anos de experiência consolidada em Direito Civil e Processo Civil – formado em Direito pela Faculdade Metodista Granbery, com foco na resolução de demandas complexas e na entrega de soluções assertivas para clientes. Minha formação inclui especialização em Filosofia Clínica, Espiritualidade e Estudos da Consciência, Filosofia e Autoconhecimento, e Gestão da Emoção, e sou graduando em Filosofia.
RESUMO
O significado espiritual de uma peregrinação, qual o motivo de milhares de pessoas realizarem caminhos de peregrinação pelo mundo? Sabemos que a peregrinação é praticada desde os tempos mais remotos em quase todas as culturas e religiões do mundo. Sendo um ato de realizar uma jornada individual ou em um grupo de pessoas até um destino considerado sagrado — seja ele uma cidade, um templo ou mesmo um trajeto em terras distantes. Quando se fala em peregrinações, grande parte das pessoas se lembram do Caminho de Santiago, um percurso que mistura trekking, religião, misticismo, tratamento psicológico e turismo. Tal caminho, historicamente falando, é inaugurado com o Rei Alfonso II ao se torna o primeiro peregrino de Oviedo a Santiago. Ao chegar, Rei Alfonso II verifica que o sepulcro encontrado é realmente do apóstolo e confirma oficialmente a veracidade da informação. Foi então que é ordenada a construção de uma pequena igreja no lugar onde foi encontrada a tumba, por volta de 847 d.C., e em plena Idade Média (476 d.C. a 1453 d.C), a decisão de fazer a peregrinação é em geral uma decisão livre e pessoal para pedir alguma graça divina, realizar alguma escolha pessoal ou até mesmo uma busca de íntima e religiosa. Séculos se passaram e aqui estamos nós humanos fazendo peregrinações pelo mundo, em busca de algo maior.
Palavras-chave: Peregrinação, Busca Espiritual, Compostela, Caminhos, autoconhecimento.
1. INTRODUÇÃO
Peregrinar, é acima de tudo um ato de devoção e sacrifício onde eles esperam melhorar a posição espiritual com sua divindade, ajudando-os a encontrar paz dentro de si mesmos.
O peregrino, o buscador, é aquele ser humano que conhece o seu ponto de partida e qual caminho precisa percorrer para chegar ao seu destino ou à meta traçada por ele, seja ela religiosa ou de autoconhecimento. O peregrino tem uma rota definida, um percurso determinado, um itinerário, um norte que deve ser seguido para alcançar o objetivo almejado.
Diferentemente de uma viagem de lazer, uma peregrinação é uma jornada empreendida por um peregrino com algum propósito, seja ele o autoconhecimento, a aproximação a Deus, o pagamento de promessas ou qualquer objetivo espiritual determinado.
Neste trabalho iremos dedicar mais tempo para falar do Caminho de Santiago, que no ano de 1993, a Unesco o incluiu na lista de patrimônios mundiais e decidiu conceder a distinção ao Caminho Francês, o mais transitado desde a Antiguidade. Inegavelmente foi um longo tempo para se consolidar a rota, desde que Gotescalco, arcebispo de Le Puy, que partiu da Aquitânia no ano 950 acompanhado de uma grande comitiva, até os dias de hoje.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. O peregrino torna-se peregrino por necessidade, obedecendo ao grito da alma
Joseph Campbell, em seu livro “O Herói de Mil Faces”, analisou histórias como a Jesus, a de Buda e até mesmo de contos de fadas. Ao se aprofundar sobre esse estudo, o autor descobriu um padrão narrativo que gira em torno da figura do herói, a partir de um olhar psicanalítico. Assim, também acontece com quem empreende em um Jornada de peregrinação.
O Peregrino cansado do “mundo comum”, vivendo sem sentido, vivendo na chamada “mesmice”, declara para sim que deseja buscar algo maior ao receber um chamado interno, se depara com o conflito, com o chamado para uma missão que o tira do seu mundinho comum, da chamada zona de conforto. Não necessariamente precisa ser algo dramático como a morte — basta que seja um desafio que o obrigue a experimentar coisas novas.
Esse desafio está relacionado a coisas importantes para o ser humano, como a manutenção da sua própria segurança ou da sua família, a preservação da comunidade onde vive, o destino da sua vida, ou qualquer outra coisa que ele queira muito conquistar ou manter.
Com medo de deixar o conforto que já é conhecido, o herói tenta imaginar o resultado de aceitar o chamado à ação. A tarefa parece assustadora e o resultado é desconhecido. Vai afastar o herói completamente de seu ambiente familiar e confortável. Nesse estágio da jornada, ele hesita em aceitar o desafio.
Porém, a força espiritual é maior, o desejo de ultrapassar o “mundo conhecido” é mais forte. Momento em que o peregrino acaba por aceitar o desafio e recebe uma ajuda sobrenatural, seja da consciência ou de uma força superior. E, assim que aceita seu chamado, o peregrino recebe um mentor, uma espécie de guia interno ou espiritual. Alguém que, com frequência, oferecer-lhe-á algum tipo de instrumento mágico ou sagrado.
O peregrino pode ir voluntariamente ou ser empurrado, mas de qualquer forma ele finalmente cruza o limiar entre o mundo com o qual está familiarizado e o desconhecido, saindo de sua zona de conforto chegando ao desconhecido externo e/ou interno. Seja como for que o limiar se apresente, essa ação significa o compromisso do herói com sua jornada e o que quer que ela tenha reservado para ele.
Sabemos através de relatos, que aqueles que fizeram peregrinações não retornam aos seus lares da mesma força que quando saíram. Uma vez que fora de sua zona de conforto, o peregrino é confrontado com uma série de desafios cada vez mais difíceis, que o testam de várias maneiras, seja no campo do autoconhecimento, seja no campo espiritual, e até mesmo no campo físico. Obstáculos surgem em seu caminho e ele deve superar cada desafio que lhe é apresentado. O peregrino herói precisa descobrir em quem pode confiar por si próprio. Ele pode ganhar aliados e encontrar inimigos que o ajudarão a prepará-lo para as maiores provações que ainda estão por vir no decorrer de sua jornada de peregrinação. Este é o estágio em que suas habilidades e poderes são testados. Cada obstáculo que enfrenta lhe ajuda a obter uma visão mais profunda.
Milhares de pessoas, anualmente, percorrem o Caminho de Santiago de Compostela, oriundos de diversas nacionalidades. Passam por provas suprema, que podem ser um teste físico ou uma profunda crise interna que o peregrino deve enfrentar para sobreviver ou para que o seu mundo continue a existir. Seja enfrentando seu maior medo ou inimigo mais mortal, ele usa todas as suas habilidades e experiências para superar seu desafio mais difícil. Somente através de alguma forma de “morte”, o herói peregrino pode renascer, experimentando uma ressurreição metafórica que de alguma forma lhe concede maior poder ou discernimento para cumprir seu destino.
Todos conhecem a história de São Francisco, a vida simples, os valores, a oração em que se pede ao Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz, e é morrendo que se vive a vida eterna. O real significado desta frase tem a ver com o nosso EGO, a morte colocada é a morte do ego. E a vida eterna é a consequência real da mudança após essa morte do ego com a peregrinação.
Após passar por este mortal desafio, podemos dizer que depois da tempestade vem a bonança. A recompensa de chegar ao destino, simboliza a transformação que moldou o peregrino de tal formar que ele ficou mais forte, não somente, pode ser algo de valor conquistado, um tesouro, uma reconciliação com o passado, ou conhecimento de novas habilidades.
Quando conclui sua peregrinação, o peregrino perde a sensação de perigo iminente e reconhece sua realização pessoal ou de um bem maior, assim, é o que dizem que conclui o Caminho de Santiago de Compostela.
Segundo Le Breton, o peregrino é um homem que caminha. Ainda segundo suas palavras, o peregrino trata-se de um sujeito que se afasta de seu mundo: “Semanas ou meses de sua casa e que faz penitência pela renúncia e provas que se impõem para ascender à potência de um lugar santo e se regenerar. A peregrinação é então uma devoção permanente a Deus, uma longa prece efetuada pelo corpo.”. O autor também comenta a relação entre a caminhada e a peregrinação. Segundo ele:
Os caminhos de Compostela são hoje percorridos por milhares de peregrinos não mais na afirmação ostentatória da fé mas em uma busca pessoal de espiritualidade ou uma vontade de ter o tempo a si, de romper com os ritmos e as técnicas do mundo contemporâneo, reencontrando-se simbolicamente a milhões de predecessores. Trata-se ainda de um voto, de uma vontade de afirmar sua devoção, mas o mais frequentemente o procedimento depende mais ainda do sagrado, isto é, a constituição de uma temporalidade e de uma experiência íntima, inesquecível em sua originalidade e sua densidade.
A respeito das transformações dos caminhos santos, comenta o autor: “os caminhos da fé cedem o lugar a caminhos de conhecimento ou de fidelidade à História, os caminhos da verdade tornam-se os caminhos do sentido, a carga para cada peregrino de colocar um conteúdo pessoal”.
Assim sendo, a emoção é projetada no tempo, pode se antecipar ao acontecimento e se misturar ao imaginário e às fantasias. Nesse sentido, chamaria esse momento pré-peregrinação de um momento onde as expectativas são fortes, as quais podem influenciar diretamente no tipo de emoção vivida durante o acontecimento em si.
2.2. A famosa peregrinação ao túmulo do apóstolo São Tiago
Segundo a Bíblia, São Tiago era um dos discípulos mais próximos a Jesus, já que várias ocasiões era um dos três apóstolos escolhidos para acompanhá-los em algumas peregrinações. Consta que, após a ressurreição de Cristo – atendendo ao pedido de seu Mestre “vai e predica a todas as gentes, desde o princípio até o fim do mundo” – Tiago se dirigiu à Hispânia – nome dado pelos romanos ao território que hoje chamamos de Península Ibérica – em 34 d.C.
Naquela época, a região da “Gallaecia” – atual Galícia – mais concretamente “Finisterrae” – literalmente o fim da terra – era considerada os confins da Terra. Acredita-se que foi em Iria Flávia, a cidade mais importante da região durante o período romano, situada a cerca de 20 km a sudoeste de Santiago de Compostela, que o apóstolo Tiago pregou pela primeira vez durante a sua evangelização neste território. Porém, sua pregação no continente europeu durou pouco e não alcançou um grande número de conversões ao cristianismo.
Ao voltar de onde partirá, em Jerusalém o apóstolo revelou-se em um dos principais evangelizadores da comunidade cristã, admirado por seu entusiasmo e pela sinceridade de suas palavras, inclusive diziam que sua confiança no Mestre era dotada de sabedoria. Membro da Igreja Primitiva de Jerusalém, Tiago foi o primeiro bispo da cidade, que vivia um clima de grande inquietação religiosa na busca da erradicação do incipiente cristianismo. Os Apóstolos estavam proibidos de pregar aos judeus, mas ignorando qualquer limite imposto, ele se manteve fiel à missão catequizadora.
Cansado das infrações e da capacidade de persuasão de Tiago, no ano 44 da era cristã, Abiathar – sumo sacerdote de Israel – inflamou uma multidão contra ele de forma que o levassem a Herodes Agripa I – Rei da Judéia – cruel e obstinado perseguidor dos cristãos. Ele foi preso, açoitado e decapitado.
A sentença foi executada durante as festas da Páscoa e transformou Tiago “o Maior” no primeiro Apóstolo a derramar seu sangue pela fé em Jesus Cristo.
São Tiago possuía dois fieis discípulos Teodoro e Atanásio, conta a história que foram guiados por um anjo, em uma barca de pedra sem leme ou vela, levaram seu corpo e a sua cabeça de volta à Galícia, enterraram o corpo de Tiago no Monte “Liberum Donum” ou Libredón. As relíquias foram colocadas na chamada “Arca Marmárica”, e sobre ela construíram um altar e uma pequena capela.
Seu tumulo virou mais tarde uma capela, posteriormente igreja, e atualmente uma catedral. O roteiro mais tradicional até o tumulo é o chamado Caminho Francês, muitas vezes chamado apenas de Caminho de Santiago, que percorre cerca de 800 km Saint-Jean-Pied-de-Port até Santiago de Compostela.
Estamos falando do Caminho de Santiago por ser o mais conhecido no mundo, palco de diversos livros e romances. Percorrido por séculos por devotos europeus, e atualmente do mundo inteiro.
Há um poema conhecido no meio dos peregrinos, tal poema foi escrito no muro da antiga fábrica de farinha, entrada de Nájera, atribuído ao Padre Eugenio Garibay Baños. que diz assim:
Poeira, lama, sol e chuva. É o Caminho de Santiago. Milhares de peregrinos, e mais de mil anos. Peregrino, Quem te chama? Que força oculta te atrae? nem o Campo das Estrelas, nem as grandes catedrais. Não é a coragem de Navarra, nem o vinho Rioja, nem marisco da Galiza, nem os campos de Castela. Peregrino, quem te chama? Que força oculta te atrae? nem o povo do Caminho, nem os costumes rurais. Não é história e cultura. Nem o galo de La Calzada, nem o Palácio de Gaudi, nem o Castelo de Ponferrada. Tudo o que vejo de passagem, é uma alegria ver tudo, mas a voz que me chama, eu sinto muito mais profundo. A força que me empurra, a força que me atrae, não pode ser explicado, Só Ele lá de cima sabe!
2.3. O que a vida espera de nós
No livro Em Busca de Sentido, o autor Viktor Frankl aborda a questão do sentido da vida. Ex-prisioneiro do campo de concentração de Auschwitz ele faz um relato da sua experiência e as situações muito difíceis vivenciadas naquele ambiente de dor, sofrimento e privações. Frente a essas situações ele conta como as pessoas que sobreviveram conseguiram reagir a tudo isso e a busca em encontrar um sentido para a vida após essa dolorosa experiência.
O autor nos faz refletir sobre a responsabilidade que temos em respondermos adequadamente as perguntas da vida. A nossa existência não pode ser pautada somente no que temos a esperar da vida, mas sim o que a vida espera de nós. Assim, bem descreve:
O que se faz necessário aqui é uma viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida. Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós. Falando em termos filosóficos, se poderia dizer que se trata de fazer uma revolução copernicana. Não perguntamos mais pelo sentido da vida, mas nos experimentamos a nós mesmos como os indagados, como aqueles aos quais a vida dirige perguntas diariamente e a cada hora – perguntas que precisamos responder, dando a resposta adequada não através de elucubrações ou discursos, mas apenas através da ação, através da conduta correta.
Todo ser humano tem dons e habilidades que precisam ser descobertos e colocados a serviço do outro, a serviço da vida, a serviço de uma causa maior que aí sim acaba dando, o que Viktor fala no trecho do livro, em um super sentido, o qual transcende o significado da nossa existência na Terra.
O trecho acima transcrito nos traz a reflexão sobre a beleza e significado da existência de cada ser humano, motivo que leva a percorrer caminhos longos em busca de si mesmo, especialmente quando o autor fala que o único aspecto transitório da vida são as potencialidades. Mas que está em nossas mãos a responsabilidade delas serem realizadas e transformadas em realidade de tal forma que elas passam a ser salvas no passado vivido, onde nada está perdido mas tudo está guardado com muito significado, como por exemplo chegar ao túmulo de São Tiago, percorrendo mais de 800 quilômetros a pé.
Assim, como narra o autor, peregrinar é ir aumentado a nossa “malinha” de experiências vividas e recheadas de possibilidades que não ficaram na transitoriedade da vida porque foram realizadas por nós com plenitude e significado a cada passo dado, em busca do sentido na vida.
O peregrino quando chega ao seu destino agradece os sofrimentos que foram vividos e suportados com coragem e bravura em busca de descobrirmos um novo sentido para a vida. Percebe que pode conectar sua espiritualidade com seu corpo, que tudo é unidade. Nos permite a vivência de um tempo oportuno onde há o domínio de maior liberdade espiritual e riqueza interior.
E ao final dessa jornada o que será essencial é se conseguirmos responder para a vida a pergunta do que ela esperava de nós. A resposta a essa pergunta é sem dúvida o maior legado que podemos deixar e ficará eternizado na memória do passado que foi um dia o presente vivido com amor, beleza, singularidade e significado. Assim caminha o peregrino, trazendo a experiência espiritual da jornada para a sua vida cotidiana.
Como já narramos, a peregrinação é praticada desde os tempos mais remotos em quase todas as culturas e religiões do mundo. É o ato de realizar uma jornada individual ou em um grupo de pessoas até um destino considerado sagrado — seja ele uma cidade, um templo ou mesmo um trajeto.
Mas peregrinar não é apenas caminhar até um determinado lugar, é realizar essa missão por algo maior que o mova e o inspire a ser peregrino, buscando um sentido para vida no seu conceito mais interno e espiritual. É ter como objetivos encontrar sua essência e seus valores, buscar o sentido da existência e evoluir espiritualmente.
No lugar para o qual você se dirige pode ter ocorrido, do ponto de vista religioso e/ou histórico, uma manifestação sobrenatural, um milagre, a passagem de um ser superior ou um acontecimento importante de acordo com a sua crença.
Aristóteles relata na Ética a Nicômaco que há uma infinidade de fins e cada homem escolhe um deles. Mas, nem todos os fins conseguem chegar a uma completude absoluta, porque apenas o sumo bem consegue ser completo absolutamente.
Esse bem supremo e completo é aquele fim que é escolhido por si próprio e não visa chegar a outro fim que não seja ele mesmo. A felicidade é autossuficiente e não é carente de nada. Ela não está na recreação, pois a recreação não é a última finalidade da nossa vida e ninguém se esforça simplesmente para se divertir. O divertimento é apenas um relaxamento. Como diria Aristóteles: “A felicidade não consiste, pois em tais formas de passar o tempo, mas nas atividades que se produzem de acordo com a excelência”. A felicidade é igual a virtude. Porque para ter uma vida virtuosa precisa-se de esforço e não de lazer, assim caminha o peregrino em seu caminho, com esforço buscando um “bem maior”. Na verdade, os divertimentos trazem mais prejuízo do que utilidade, pois em estado de lazer o homem esquece-se dos cuidados do próprio corpo algo, fundamental para o grego, além de esquecer os seus afazeres da vida política.
Desta maneira, chegamos a conclusão de que a felicidade não está em passatempos, mas em atividades virtuosas, buscando maior contato com o “eu interior” e com o “eu espiritual”. Porém, a maioria das pessoas acreditam que a felicidade está no lazer. Por isso trabalham a semana inteira para ter apenas um dia ou dois de folga. E como já vimos, a felicidade não está nem no lazer nem na ausência de fadiga, mas está na atividade racional, como no ato de caminhar em peregrinação, desde que essa atividade faça parte de sua vida inteira. Aristóteles descreve que “a felicidade parece ainda acontecer quando há tempo livre, porque nós ocupamos o tempo a trabalhar para podermos gozar de tempo livre, do mesmo modo que fazemos guerra para poder viver em paz”. Mas, para Aristóteles, esse tempo de ócio deve ser algo permanente, interno do ser humano, em seu íntimo.
A felicidade é, pois, tratada entre as coisas de valor inestimáveis, completas ou perfeitas e, pelo fato de se tratar de um princípio, por causa dela que fazemos todas as outras coisas. Aristóteles descreve que “a felicidade é uma atividade da alma”. Enquanto a felicidade é uma atividade da alma, a faculdade de desejar e o elemento intencional são atividades da razão, atividade essa que é própria do ser humano.
Percebemos, em um senso comum, que a maioria dos homens acreditam que a felicidade está vinculada a outra coisa que a complete, mas o precisamos deixa claro que existem dois critérios específicos que diferencia o sumo bem dos demais, a saber: autossuficiência e a perfeição. É autossuficiente porque a felicidade torna a vida desejável, sem carências de nada; é perfeita porque não é buscada em vista de outra coisa, sempre buscamos a felicidade por ela mesma. Aristóteles em seu livro Ética a Nicômoco, ensina que basta por si aquele bem que sem outro torna a vida preferível, e a qual nada falta; tal se estima seja a felicidade e é para além de todos os bens o mais digno de ser desejado, sem que esteja enumerado entre eles. Ao mesmo tempo, Aristóteles apresenta três formas principais de viver a vida; cada modo de vida entende a felicidade de uma forma: viver em busca dos prazeres, se dedicar a política para conseguir honra ou concentrar-se na contemplação.
Percebemos que os peregrinos, em seu caminho de busca interna espiritual, no sentido amplo da palavra, buscam concentrar-se na contemplação.
Os que se dedicam aos prazeres fazem parte da maioria da população, eles buscam satisfazer as suas vontades e seus desejos mais primários, o homem que vive assim escraviza a si próprio. E apenas aparentemente possuem um sentido para sua vida. Já os que se dedicam a vida política e praticam grandes feitos em busca de honra não encontram a felicidade perfeita. Pois, o bem precisa ser algo próprio do homem e que não possa lhe ser tirado, a honra não pode ser esse bem, porque ela depende de outras pessoas para conceberem.
No Livro X da Ética a Nicômaco Aristóteles descreve que a felicidade perfeita é resultado de uma atividade puramente contemplativa, uma virtude mais elevada e que é a melhor nos seres humanos. Nossa capacidade de contemplação excede a nossa faculdade de execução de qualquer ação. Essa maneira de viver alcança a real função do homem, porque os que vivem como os sábios, aspiram ao bem por ser um bem e não por outra coisa, eles agem assim porque são levados pela razão.
Os que levam uma vida contemplativa vivem de forma racional, de forma que satisfaz o seu “eu interior”, e através da razão o homem procede de acordo com sua mais excelente faculdade, tendo em vista um bem que é a própria finalidade, e esse é o sumo bem, como bem descreve Aristóteles. Como a razão é a mais nobre faculdade humana, a vida contemplativa é o modo de vida mais feliz para o homem. Visto que é a sabedoria que mais nos proporciona felicidade, e só seria possível através da contemplação. E quanto mais o homem se afastar da parte irracional de sua alma, mas ele transcende a sua própria natureza chegando mais perto do que é divino.
Percebemos que o ato de caminhar em peregrinação tem a capacidade de aproximar o homem de sua própria natureza, trazendo seus sentimentos para a contemplação, transcendendo sua natureza ao estar mais em contato com seu “eu interior”, com a espiritualidade, com o divino.
A sabedoria é uma das excelências que mais nos proporciona prazer, porque o prazer que é proporcionado pela sabedoria deriva de ações virtuosas que são frutos da parte racional da alma, são chamadas por Aristóteles de prazeres superiores, pois deriva da contemplação. O sábio desempenhará a atividade contemplativa por si só e em si próprio. E quanto mais sábio, mais facilidade de contemplação. Porque o sábio é o mais autossuficiente dos homens.
A felicidade é a coisa mais aprazível do mundo, e é perfeita em uma vida contemplativa. Aristóteles pede que pensemos no fato de que os deuses são felizes, sabemos que eles não fazem nem um ato injusto, porque não é de sua natureza. Assim, chega à conclusão de que os atos dos deuses são contemplativos, e dessa contemplação deriva a felicidade. Consequentemente, as atividades humanas que mais se parecem com essas, participam da felicidade.
Aristóteles se pergunta, ainda, se o homem apenas com a contemplação conseguira ser feliz, sem que sinta falta da saúde, da alimentação e tudo o que um homem precisa para manter o seu corpo. Sabemos que se nossa felicidade dependesse de bens exteriores não seria difícil encontrá-la. Porém, precisamos das coisas básicas como, por exemplo, alimentação, mas nada em excesso. O dinheiro não traz felicidade, essa frase tão conhecida está sendo usada para mostrar que ele é apenas um instrumento para alcançar alguma outra coisa que necessitamos no momento.
Isso confirma que a felicidade não está nos bens em excesso, e muito menos nos bens materiais, mas na vivência das virtudes. Tanto que, não precisamos de muito para a realização da peregrinação. Como os peregrino rumo ao tumulo de São Tiago, caminham por mais de 30 dias carregando uma mochila com poucas mudas de roupas, carregam tudo que tem, e o tem, é apenas o essencial para cumprir a jornada. Costumam dizer que carregam sua casa nas costas.
2.4. Evidências científicas dos benefícios da peregrinação
O primeiro estudo psicológico sobre os efeitos da peregrinação a Santiago de Compostela na saúde mental e bem-estar daqueles que se dispõem a viver esta experiência, dirigido pelo Dr. Albert Feliu Soler, do Departamento de Psicologia da Saúde da Universidade Autônoma de Barcelona – indicam que a peregrinação pelo Caminho de Santiago mostrou-se associada a benefícios de curto e médio prazo em uma ampla gama de medidas de saúde mental e bem-estar psicológico.
Os benefícios associados à realização do Caminho foram superiores aos observados após “férias padrão” (sem peregrinação) na maioria das medidas de saúde e bem-estar avaliadas. A figura 1 indica melhora percebida na saúde mental de peregrinos a curto e médio prazo.

Figura 1 – Mudanças associadas ao caminho. Fonte: http://www.estudiocamino.org
Os resultados desta pesquisa nos são apresentados em um momento especialmente importante para o debate público sobre saúde mental, em decorrência dos efeitos da crise gerada pela pandemia em nosso bem-estar.
Desconforto emocional, percepção de estresse, satisfação com a vida, desapego, tolerância, não julgamento e coerência com valores pessoais foram algumas das variáveis estudadas e que apresentaram melhoras significativas imediatamente após a peregrinação pelo Caminho de Santiago e três meses depois.
Embora já se soubesse, ainda que empiricamente, que muitas pessoas que fazem o Caminho de Santiago percebem a peregrinação como uma experiência de valor profilático e terapêutico contra a ansiedade e a depressão, os resultados do estudo – do qual participaram centenas de peregrinos – confirmam essa impressão com evidências científicas.
Fatores inerentes ao Caminho – como viver o momento presente, manter a atenção em cada passo dado, observar lentamente a paisagem e respirar ar fresco – certamente contribuem para a conquista dessas mudanças.
Esse tipo de estudo abre caminho a um objetivo ambicioso: demonstrar a eficácia terapêutica da natureza para consolidá-la como um tratamento em saúde pública.
Não é por acaso que o chamado “Transtorno do Déficit de Natureza”, cunhado em 2005 pelo jornalista americano Richard Louv em seu livro “A última criança na natureza” (Last Child in the Woods) é uma realidade cada vez mais clara para psicólogos, psiquiatras, educadores e pediatras.
Este novo conceito – definido pelo autor como “o custo humano da separação da natureza, incluindo: diminuição do uso dos sentidos, dificuldade em prestar atenção e aumento dos casos de doenças físicas e emocionais” – foi atribuído ao campo da psicologia ambiental e tem gerado numerosos estudos que nos fazem lembrar que somos a própria natureza e afastar-nos dela nos deixa doentes.
Além disso, como disse Joseph Pilates: “Mudanças acontecem através do movimento e o movimento cura!”. Caminhar em um ritmo sustentado produz a liberação de endorfinas em nosso cérebro enquanto reduz o cortisol, o hormônio do estresse. Em última análise, sejam os aromas, as experiências, as paisagens ou o movimento, os efeitos terapêuticos do Caminho de Santiago são evidentes.
2.5. A caminhada de peregrinação
A caminhada tem a faculdade de nos libertar de todas as rotinas e familiaridades, criando novos vislumbres do mundo. Quando nos metemos nas trilhas, deixamos nossas seguranças e partimos em direção a um mundo desconhecido. Que homem vamos ser, ou que mulher? Iguais a crianças, somos invadidos pelo espírito de aventura, acordados, e em alerta. Os reflexos não são mais os mesmos. Sem preocupação com viaturas, a gente pode se abrir à contemplação da beleza do mundo, deixar-se envolver por uma paisagem, uma tonalidade de luz, por uma floresta.
A caminhada de peregrinação nos confronta permanentemente com o surgimento do sagrado. Ao contrário do religioso que nos “relaciona”, nos “religa” – como indica sua etimologia – a uma comunidade ou a um ritual coletivo, o sentimento do sagrado é da ordem da experiência pessoal. Aliás, é difícil partilhar com outros essa experiência interna, isso é o que diz os peregrinos ao concluir sua jornada: “A gente caminha por nada; tem-se a eternidade diante de si, e nosso espírito percorre as campinas, libertado das rotinas de cada dia.”
Arrancados do cotidiano do mundo, os peregrinos experimentam um sentimento de elevação, que pode estar, ou não, associado a uma crença. Para muitos, será simplesmente a emoção de se sentir ligado ao cosmos, a um mundo mais vasto, que os ultrapassa. Todos os sentidos são atingidos: a vista, é claro, mas também o ouvido, com um banho de silêncio num mundo de sons: o canto das aves, o deslizar da água. Também os cheiros da floresta e da terra, do musgo, das flores. Dizem que vontade de apalpar as árvores, colher uma pedra, mergulhar as mãos na água fresca. Na cidade não há nada para tocar – é esse, aliás, o drama que vivem as crianças. Caminhando, reencontramos, nessa celebração de sentidos, um universo que desapareceu da vida corrente.
O ato de peregrinar fazer sentir a vida que emana do mundo vegetal e animal, como um sentimento de aliança e de proteção, como dizem os caminhantes, sentindo “Uno” numa imensidão. Podemos dizer que peregrinar é largar de mão todas as imposições consumistas de rendimentos, de eficiência, de utilidade. Tem-se a eternidade diante de si, e nosso espírito percorre os campos, libertado de suas rotinas ordinárias.
De tudo! Muitos peregrinos que fazem longos percursos buscam um sentido para sua vida, seja que passem por um sofrimento pessoal ou precisem superar um dano. Muitas vezes os filhos se reaproximam numa estrada. Algumas pessoas depressivas contam que reencontraram o gosto de viver, ou outros que superaram uma difícil etapa de vida em seu luto. Uma longa caminhada contém, dentro dela, um renascimento, como uma possibilidade de lançar novamente os dados e recomeçar sua existência.
A maioria dos peregrinos tomam consciência de sua existência, e logo após a jornada, tomam decisões importantes no fim de uma caminhada feita: uma mudança de moradia, uma mudança de vida etc. Como se a pessoa reencontrasse seu centro de gravidade. Quem caminha dezenas de quilômetros por dia melhora de forma natural sua saúde, o que já popularmente conhecido. Isso não tem nada a ver com a fadiga nervosa diária da vida profissional. A fadiga física é sempre jubilosa, como o é a sensação de ter fome ou de ter sono. A caminhada de peregrinação faz redescobrir com felicidade o elementar da condição humana.
3. METODOLOGIA
O presente trabalho tem por objetivo aprofundar o conhecimento científico da Peregrinação e do peregrino. Ou seja, o trabalho investiga o ato de peregrinar, buscar essência da vida e do sentido espiritual no ato de caminhar em uma jornada rumo a um local especifico.
A metodologia empregada esta diretamente relacionada a busca de livros e autores que descrevem a respeito do tema proposto, uma vez que já passaram pelo caminho, já foram peregrinos ou descreveram experiências significativas.
Em acordo com o objetivo geral e os objetivos específicos, este estudo foi realizado através de uma pesquisa bibliográfica do tipo revisão narrativa com base na abordagem qualitativa do tipo descritivo e exploratório daqueles que buscam sentido espiritual para caminhar caminhos.
A maior vantagem da pesquisa bibliográfica se dá a ampla cobertura do tema, permite investigar os fenômenos estudados de forma muito mais abrangente do que se pesquisasse diretamente. Além disso, a pesquisa do tipo bibliográfica é amplamente usada em pesquisas de cunho histórico, muitas vezes são o único meio de se ter acesso a informações do passado. Porém, é preciso salientar o cuidado que se deve ter com este tipo de pesquisa, pois as fontes secundárias podem apresentar dados coletados e processados de forma equivocada, comprometendo assim a nova pesquisa que os utiliza como meio. Desta forma cabe ao pesquisador assegurar-se de analisar a forma como estes dados foram obtidos e se atentar às informações em busca de incoerências.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Primeiro ponto, a ser abordado é a caminhada como benefício a saúde do corpo e espiritual. O bem-estar proporcionado pela peregrinação também traz benefícios para a saúde mental, contribuindo para o relaxamento e a redução do estresse. Com isso, é possível prevenir e combater doenças como a depressão e a ansiedade.
Dessa forma, a peregrinação é uma experiência cheia de benefícios socio – emocionais, por representar a união do exercício físico, com o equilíbrio corporal e a meditação, o que constitui as bases de uma vida tranquila, ligando corpo e mente. O filósofo Aristóteles pensava a filosofia andando em círculos, o que lhe concedeu o apelido de peripatético, significando a arte de pensar caminhando. Pelos resultados notáveis de suas conclusões, podemos imaginar como se torna proveitoso tal hábito de andar, não de cabeça vazia, mas sim sempre ocupada em atingir culminâncias.
O que não dizer então dos benefícios obtidos por aquele que, caminhando em silêncio, dirige sua mente aos estratos superiores de sua reflexão, à prática constante da oração espiritual, obtendo assim a revelação e a calma fundamentais ao equilíbrio de sua psique. Ainda mais, em momentos de profundo stress como esses, motivados por uma demanda grande trabalho, a prática periódica do caminhar orando representa um precioso momento de relaxamento e reencontro com nossas origens sagradas, uma pratica espiritual ancestral.
Não é necessário sair correndo, como fazem os jovens atletas urbanos, procurando fortalecer os músculos do coração ou a firmeza das pernas. Basta um caminhar sereno e suficiente que permita a todo o corpo equilibrar os seus passos, não causando cansaço ou fadiga, que se exercita sem se cansar, o que faz muito bem ao equilíbrio hormonal. Até mesmo porque as peregrinações costumam ser de dias, com mochilas e cajados nas mãos.
A caminhada é um esporte fácil de ser praticado, não causa despesas e nem precisa de parceiro ou companhia física. Executada nos primeiros horários da manhã, é uma ótima oportunidade de respirar o ar puro e livre de poluição, e representa um momento excelente de concentração psíquica, que a oração ajuda a encontrar a união espiritual do ser.
Sair do asfalto e caminhar entre rochas, raízes e terrenos traz benefícios espirituais que a urbanidade nos levou a esquecer, momento em que nos deixa presos no sofá em frente as “telas”. Peregrinar é uma das principais ações que caracterizam o ser humano, uma vez que éramos nômades em busca de alimentos e melhores condições de vidas. Portanto, somos projetados para percorrer longas distâncias.
Estima-se que nossos ancestrais, caçadores e coletores, viajaram distâncias entre 6 a 16 km por dia. Há 4 milhões de anos, os ancestrais de nossa espécie já estavam andando de pé. Até 10.000 anos atrás, o homem vivia principalmente em cavernas naturais e dependia da caça, coleta e pesca.
Conforme comentamos nesse estudo, o desconforto emocional, percepção de estresse, satisfação com a vida, desapego, tolerância, não julgamento e coerência com valores pessoais foram algumas das variáveis estudadas e que apresentaram melhoras significativas imediatamente após as peregrinações.
Embora já se soubesse, ainda que empiricamente, que muitas pessoas que fazem o Caminho de Santiago percebem a peregrinação como uma experiência de valor profilático e terapêutico contra a ansiedade e a depressão, os resultados do estudo – do qual participaram centenas de peregrinos – confirmam essa impressão com evidências científicas.
Fatores inerentes ao Caminho – como viver o momento presente, manter a atenção em cada passo dado, observar lentamente a paisagem e respirar ar fresco – certamente contribuem para a conquista dessas mudanças. Caminhar em um ritmo sustentado produz a liberação de endorfinas em nosso cérebro enquanto reduz o cortisol, o hormônio do estresse. Em última análise, sejam os aromas, as experiências, as paisagens ou o movimento, os efeitos terapêuticos do Caminho de Santiago são evidentes.
Desta forma o Caminho de Santigo é fonte de saúde física, mental e social e quem já teve o privilégio de percorrê-lo conhece seus benefícios, porque já os experimentou.
Porém, muito além do benefício criativo que o ato de caminhar em meio a natureza promove, podemos também desenvolver o autoconhecimento, à evolução individual e até à saúde mental.
Não à toa, a psicóloga e educadora americana, Francine Shapiro, descobriu em suas longas caminhadas que o ato de movimentar os olhos, contemplando os detalhes da paisagem, pode ajudar no tratamento de traumas pesados.
Além de tudo isso, a espiritualidade ainda fica muito mais aflorada! Passar um tempo caminhando é como fazer um retiro espiritual — da mesma forma que é preciso “se retirar” e sair da sua zona de conforto, seja qual for a fé professada pelo peregrino. Diante das diversas situações imprevistas que podem ocorrer com um peregrino, entendemos que podemos ser bons naquilo que imaginávamos não ser, e que temos condições de nos superar a cada novo destino visitado.
Além disso, passamos a gostar de coisas que nem conhecíamos, ou até daquelas que nunca havíamos nos permitido experimentar. Por isso, para garantir uma peregrinação proveitosa é preciso abrir a mente e o coração a cada vivência, na certeza de que dias bem vividos são bênçãos em nossas vidas.
Enfim, fazer uma peregrinação é uma das melhores experiências que alguém pode ter na vida. Por meio dela, como vimos, o indivíduo acumula conhecimentos e muitas histórias pra contar, além de fazer amigos e deixar um pouco de si em cada lugar visitado.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Peregrinação, ato de caminhar, simplesmente caminhar uma Jornada rumo ao autoconhecimento e espiritual. Se faz a jornada através do corpo físico acessando todos os centros de emoção e perspectiva de vida interior.
O peregrino quer se conhecer mais intimamente, ouvir a sua voz interna. Isso que se percebe ao analisar e estudar o tema, muito mais que algo ou superação física do ato de caminhar.
O peregrino busca sentido para sua vida, desejando e almejando ter mais sucesso e paz em sua vida, se conectando com emoções profundas e com a natureza a sua volta, escutando aos pássaros e o vento passar pelas arvores.
De tudo! Muitos peregrinos que fazem longos percursos buscam um sentido para sua vida, seja que passem por um sofrimento pessoal ou precisem superar um dano. Muitas vezes os filhos se reaproximam numa estrada. Algumas pessoas depressivas contam que reencontraram o gosto de viver, ou outros que superaram uma difícil etapa de vida em seu luto. Uma longa caminhada contém, dentro dela, um renascimento, como uma possibilidade de lançar novamente os dados e recomeçar sua existência.
A maioria dos peregrinos tomam consciência de sua existência, e logo após a jornada, tomam decisões importantes no fim de uma caminhada feita: uma mudança de moradia, uma mudança de vida etc. Como se a pessoa reencontrasse seu centro de gravidade. Quem caminha dezenas de quilômetros por dia melhora de forma natural sua saúde, o que já popularmente conhecido. Isso não tem nada a ver com a fadiga nervosa diária da vida profissional. A fadiga física é sempre jubilosa, como o é a sensação de ter fome ou de ter sono. A caminhada de peregrinação faz redescobrir com felicidade o elementar da condição humana.
Referências
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